segunda-feira, abril 18, 2011

a inveja é fodida

A primeira das mentiras sobre a "ajuda externa" que a Europa se prepara para dar a Portugal é o próprio nome. Nenhum país vai ou quer ajudar Portugal, porque todo o dinheiro que cá entrar nesse âmbito é para ser devolvido com juros. É, portanto, um negócio igual ao que os bancos privados fazem e não uma ajuda.

O negócio de emprestar dinheiro é, aliás, o melhor negócio do mundo, porque se vende dinheiro por mais dinheiro ainda. Não há cá espaço para relatividade sobre o valor do que se compra. Podemos dizer ao vizinho que o automóvel que ele comprou foi barato: - "Epá! Só deste quinze mil euros por este carro?! Bom negócio"; mas ninguém diz: "Epá" Só deste quinze mil euros por estes dez mil euros?! Bom negócio". Pagar juro é o pior negócio do mundo e é por isso que nos recusamos a dizê-lo. É um tabu.

Chamar "ajuda externa" a este empréstimo é o mesmo que dar um euro a um pobre na rua e avisá-lo que no dia seguinte vamos lá buscar um euro e vinte. Não o estamos a ajudar, mas dizemos que sim porque ele tem tanta fome que nem se arrisca a discutir isso connosco. Sabe que no dia seguinte está lixado com a nossa ajuda mas, pelo menos, pode comprar uma sande de manteiga e matar a fome que sente no momento. Arrogantemente, quando se lhe empresta esse euro, até há quem lhe diga para não o gastar em vinho, e é mais ou menos isso que o FMI quer fazer connosco. Empresta-nos dinheiro mas não nos deixa gastar em vinho. Já agora nem em salários, nem em pensões, nem em nada que melhore o nível de vida dos cidadãos e consequentemente melhore o estado da Economia. Com os bancos, por exemplo, já deixa. Estranha forma de ajuda, esta.

Ontem os Verdadeiros Finlandeses, leia-se extrema direita finlandesa, ficaram em terceiro nas eleições legislativas daquele país, e agora querem recusar essa ajuda a Portugal da mesma forma que se contorna um pedinte na Avenida da Liberdade. Habituei-me desde cedo a imaginar um Verdadeiro Finlandês como um gajo branco a roçar a anemia, sempre com os pés frios na cama e uma  lâmpada de ultravioletas no quarto para compensar a falta de Sol. É natural que um Verdadeiro Finlandês desses não queira emprestar dinheiro a quem passa o Verão na praia. A inveja é fodida.

Eu, daqui da praia da Barra em Aveiro, e num magnífico dia de Sol, peço apenas isso mesmo aos Verdadeiros Finlandeses, Verdadeiros Alemães, Verdadeiros Holandeses e Verdadeiros Filhos da Puta que acham que a culpa da Crise é de quem é pobre e não de quem anda a chupar os pobres até aos ossinhos, leia-se bancos, seguradoras, agências de rating e a mercearia da Dona Olinda que ontem aumentou o preço do vinho tinto: Parem de nos Ajudar e vão-se foder! 

11 comentários:

HydraFlama disse...

Porra pá!
A verdade é fodida!

Anónimo disse...

Gostei do texto, duro crú. Mas olhe, os finlandeses não estão só lá. Eles estão por exemplo aí em Aveiro. O maior empregador de Aveiro de tipos qualificados é a NSN (Nokia-Siemens-Networks), controlada por finlandeses, que por acaso veem para cá espiar os tugas que trabalham para eles e são colocados em Cascais, com apartamento e carro pago. Esses não são gajos brancos a roçar a anemia, apanham mais sol que você e eu :P

MRVADAZ disse...

Vendo bem as coisas, concordo. Enfim, este é o mundo que temos e a cultura económica que criamos e implementamos.

bagaco amarelo disse...

hydraflama, lol. :)

anónimo, e por acaso são os mesmo que nos anos noventa, quando a União Soviética caiu, andaram também de mão estendida e a passar fome. :)

mrvadaz, é a cultura económica da Escola de Chicago. A mesma que matou o Allende para dar lugar ao Pinochet, a mesma que salva bancos e mata pessoas. :)

Joao disse...

Ola,

Isso é tudo muito engraçado, mas a verdade é que somos defacto o pobre que precisa do euro e meio para comprar uma sandocha para ter força para tentar arranjar um emprego nem que seja a lavar escadas ou a desentupir sargetas.

Se não nos emprestarem esse dinheiro não teremos nem que comer no longo prazo. Não é já uma metáfora, é a verdade. Não produzimos o suficiente para alimentar os 10 M de portugueses.

Porquer a verdade é que o que eles não querem é emprestar dinheiro com um juro abaixo daqueles que podem se não forem obrigados por responsabilidades europeias.


E esse juro já anda nos 10% ver aqui:

http://economia.publico.pt/Noticia/juros-a-dois-anos-atingem-novo-recorde-nos-dez-por-cento_1490292

E agora a parte pior. Sabe porque? Porque se calhar o amigo caganita pensa que emprestar dinheiro a quem não tem nem para comer é um bom negócio.

Pois, pensa. Já o disse.

Mas não é. Por isso não é inveja. É egoismo. E essa devia ser a critica. É que um dia, podem ser eles a precisar de emprestar a juros que não compensam o risco.

bagaco amarelo disse...

a "ajuda externa" que a Alemanha, a Holanda e a comunidade internacional deram à Grécia e à Irlanda e agora querem dar a Portugal só tem um fim: Portugal poder pagar a dívida que tem aos bancos privados desse países, mas é por causa desses bancos que estamos crise. É aliás, à conta do constante endividamento a esses bancos, que a UE tem tido políticas para que o PIB português tenha quase desaparecido.
Mas etse link do Público é sobre o mercado secundário, portanto não tem nadinha a ver com o juro pago pelo Estado português. O Mercado Secundário é, aliás, aquele onde o BCE vai comprar dívida quando o Estado não pode pagar, precisamente para tirar a batata quente dos bancos. mais uma vez... e com os nossos impostos. :)

Rolando Almeida disse...

repliquei o texto no meu face e disse que é o melhor texto de economia que li nos últimos dias. Mas não concordo com o argumento. Segundo me apercebo - e posso aperceber-me mal- o problema não é não produzirmos pouco para os gastos. O problema é político e a responsabilidade da nossa pobreza é política. Se não tivessemos irresponsavelmente ano após ano, feito ginásticas financeiras populistas não estaríamos em sufoco nesta fase (ou estaríamos?). E, se não erro, as pessoas tinha alguma percepção que viviamos acima das possibilidades graças ao crédito. É verdade que a nossa vida é muito cara, mas ainda assim os passos dados foram maior que as pernas.

António disse...

Bagaço,
Lamento desiludir-te mas o que se passou nas eleições finlandesas não tem quase nada a ver com Portugal ou com os portugueses.

Um português ficar zangado/irritado/seja o que for por os finlandeses votarem no partido dos "finlandeses comuns" (é esta a tradução correcta e não, não são de extrema direita) é tão legítimo como um finlandês comum (mas não votante neste partido populista) ficar chateado com Portugal por virem nesta altura, precisamente em cima das eleições, municiar os populistas. "Então vocês não podiam esperar umas semanas até às eleições? Não sabem o barulho que deu emprestar dinheiro aos bancos da Grécia e da Irlanda?" Obviamente que a decisão de Portugal em nada pretendeu influenciar as eleições na Finlândia...

Bem vistas as coisas, se calhar, quem vive na Finlândia até teria mais razões para estar chateado com os portugueses... Nós é que os vamos aturar nos próximos 4 anos...

Se te interessa, e aos teus leitores, o meu amigo André publicou esta entrada no blog da nossa comunidade: A Finlândia vista de Portugal visto da Finlândia.

bagaco amarelo disse...

rolando almeida, isso é verdade. o problema é não ser a verdade toda. nós estamos em crise por causa da especulação financeira. Estamos em crise porque vivemos num modelo económico em que os Estados estão sempre a dever dinheiro à banca privada e não intervêm nem regulam a Economia.
Duma só vez o Governo enterrou 5,5 mil milhões de euros dos nossos impostos em bancos falidos, mas a coisa nem fica por aí. São as agência de rating privadas que são pagas pelos especuladores, os mesmo que compram títulos de dívida e por isso ganham mais com ratings baixos; é a própria produção de moeda do BCE e da Reserva Federal que é dívida dos Estados; é o BCE a emprestar dinheiros nosso a 1% aos bancos para eles emprestarem a 7% ou 8% aos países... enfim,isto nunca mais acaba. :)

antónio, na verdade eu não estou irritado por os finlandeses não quererem emprestar dinheiro com juros a Portugal (e não ajudar). Estou irritado porque a extrema direita me irrita só por existir. E sim, estamos a falar de extrema-direita. Não a mesma extrema-direita racial dos anos 40 e 50 mas extrema-direita económica e social.
Aliás, se há país que sabe o que ´estar em crise a precisar de ajuda é a Finlândia, que teve uma economia durante anos com uma moeda sobrevalorizada (quando a moeda era ainda indexada a ouro) à conta de ser o parceiro preferencial entre o Ocidente e a URSS. Quando o muro caiu, a Finlândia também caiu. Obrigado pelo link (vou ler mais à tarde que agora estou sem tempo). :)

carlos disse...

Onde se diz "É, portanto, um negócio igual ao que os bancos privados fazem e não uma ajuda.", não me parece correcto porque os juros da ajuda externa são mais baixos (à partida).
O que mais me chateia é que os bancos também estão à espera da mama da ajuda externa.

bagaco amarelo disse...

carlos, os juros serem mais baixos ou mais altos ainda não sabemos. na Grécia a média foi 5%, o que não é nada baixo se pensarmos que o BCE empresta a 1%. :)